Vozes da Escuridão

Vozes da Escuridão

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Prólogo: O Acidente


A noite era uma espessa cortina de neblina quando Helena Martins dirigia pela estrada deserta, voltando para casa depois de um longo dia de trabalho. A chuva martelava o para-brisas, e os faróis de seu carro mal conseguiam iluminar o caminho à frente. O rádio chiava, alternando entre estática e fragmentos de uma música desconhecida. Exausta, Helena lutava contra o sono.


Foi então que, de repente, algo enorme atravessou a estrada. Helena não teve tempo de frear. O impacto foi violento, o som de metal amassado e vidro estilhaçado se misturando ao seu grito abafado. O carro rodopiou antes de sair da estrada e descer por uma ribanceira, virando-se várias vezes até parar, envolto em um silêncio mortal.


Desacordada e com o corpo preso no carro amassado, Helena não viu o que a atingira. Porém, enquanto a escuridão a envolvia, algo começou a se mover ao seu redor. Sons suaves, quase imperceptíveis no início, mas que logo se transformaram em sussurros insistentes. Vozes. Elas penetravam em sua mente, sibilantes, como se estivessem sempre ali, esperando apenas o momento certo para serem ouvidas.


E então, no vazio de sua consciência, as vozes disseram em uníssono: "Você pode nos ouvir agora."


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Capítulo 1: Despertar


Helena acordou em um hospital, envolta em lençóis brancos e com a luz artificial refletindo nos aparelhos ao redor. A cabeça latejava, e ela sentia o corpo todo dolorido. Ao seu lado, uma enfermeira ajustava os medicamentos.


— "Você teve sorte de sobreviver," disse a enfermeira. "Os paramédicos não acreditavam que alguém sairia com vida daquele acidente."


Confusa, Helena tentou se lembrar do que acontecera. Fragmentos vinham à tona: a estrada, a sombra cruzando à sua frente, e... as vozes. Mas ela não se atreveu a mencioná-las.


Nos dias que se seguiram, Helena começou a notar mudanças sutis. Mesmo deitada no hospital, onde o silêncio deveria ser reconfortante, ela ouvia sussurros. No começo, eram como um zumbido baixo, como estática. Mas logo ficaram mais nítidos, mais presentes, como se estivessem ao seu lado, falando com ela. Chamando por ela.


Ela tentou ignorar. Talvez fosse o trauma do acidente, pensou. Talvez fosse o efeito dos analgésicos. Mas quanto mais tentava afastar os sons, mais fortes eles se tornavam, até que ela não podia mais fingir que não estavam lá.


Uma noite, enquanto dormia, as vozes se intensificaram. Elas sussurravam segredos, nomes que ela nunca ouvira, histórias sobre lugares que não existiam em seu mundo. E uma delas, mais nítida que todas as outras, disse algo que fez o sangue de Helena gelar:


— "A barreira está rompida."


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Capítulo 2: A Ruptura da Realidade


De volta à sua casa, Helena tentou retornar à normalidade. Porém, a sensação de que algo estava terrivelmente errado a acompanhava. As vozes não a deixavam em paz, sussurrando segredos sobre coisas invisíveis à compreensão humana, coisas que espreitavam além dos limites de sua percepção.


Certa noite, sentada em sua sala de estar, as luzes começaram a piscar. Um frio súbito preencheu o ambiente, e as sombras nas paredes pareciam se alongar, movendo-se de forma antinatural. As vozes estavam mais altas agora, dizendo coisas que ela não conseguia entender completamente, mas podia sentir o pavor nas palavras.


Helena fechou os olhos, tentando bloquear o que ouvia. Mas, em vez disso, algo mais perturbador aconteceu: ela começou a ver coisas. Imagens distorcidas, como vislumbres de outra realidade. Portais se abrindo no ar, criaturas grotescas com formas além da imaginação, cidades feitas de estruturas impossíveis, onde o céu não seguia as leis da física. Ela viu um oceano negro sem fim, habitado por coisas imensas que se moviam nas profundezas, e acima dele, uma lua quebrada que lançava uma luz insana sobre tudo.


Ela abriu os olhos, tentando escapar da visão, mas os sussurros estavam lá, inescapáveis:


— "Eles estão vindo. Eles sempre estiveram aqui."


Com o passar dos dias, Helena começou a duvidar de sua sanidade. Ela procurou ajuda de psiquiatras, mas nenhum medicamento ou terapia silenciava as vozes. Pelo contrário, os tratamentos pareciam intensificar os sussurros, como se as entidades que falavam com ela ganhassem força ao serem ignoradas.


Em uma noite de insônia, as vozes a guiaram até o sótão, onde ela encontrou um antigo espelho, algo que nunca havia visto antes. A superfície do espelho era estranhamente opaca, e quando Helena se aproximou, uma das vozes sussurrou:


— "Olhe além."


Ela hesitou, mas algo mais forte a impeliu a se aproximar. Quando olhou no espelho, não viu seu reflexo. Em vez disso, viu uma vasta escuridão, e, no fundo dela, figuras contorcidas que se moviam em silêncio. Eram seres com formas indistintas, rostos que não eram humanos, mas observavam-na como predadores. E então, uma delas falou diretamente com ela, em um tom calmo, mas cheio de um conhecimento antigo e aterrador:


— "Você nos abriu. O mundo deles está se sobrepondo ao seu."


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Capítulo 3: A Revelação


Desesperada, Helena começou a pesquisar tudo o que podia sobre fenômenos sobrenaturais, universos paralelos, e qualquer coisa que pudesse explicar o que estava acontecendo com ela. Nos cantos obscuros da internet, ela encontrou relatos semelhantes: pessoas que afirmavam ouvir vozes de outras dimensões, seres que sussurravam verdades proibidas sobre o universo.


Ela descobriu um nome repetido em todos esses relatos: Ny’velth, uma entidade descrita como uma presença imaterial que vagava entre as dimensões, trazendo loucura e caos aos que entravam em contato com ela.


As vozes pareciam rir quando ela pronunciou o nome pela primeira vez. Elas sabiam que ela estava se aproximando da verdade. Em seus sonhos, Helena começou a ver mais daquilo que as vozes a estavam alertando. Ela viu os limites de seu mundo se desgastarem, revelando brechas pelas quais "eles" entravam. Seres feitos de sombras e fome, entidades ancestrais que existiam antes mesmo do conceito de tempo.


E, acima de tudo, ela viu uma verdade terrível: o universo não era o único. Havia camadas de realidades, e a nossa era apenas uma fina membrana, frágil e vulnerável. Outros universos, habitados por seres inimagináveis, existiam ao lado do nosso. E agora, por causa de Helena, as barreiras estavam se rompendo.


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Capítulo 4: O Fim do Véu


Certa noite, as vozes estavam mais altas do que nunca. Elas não sussurravam mais; gritavam em línguas esquecidas. A realidade ao redor de Helena começou a se distorcer. As paredes de seu apartamento ondulavam como se fossem feitas de fumaça, e figuras indescritíveis começavam a emergir das sombras, tomando forma ao seu redor.


Ela sabia que algo estava prestes a acontecer. As barreiras entre os mundos estavam ruindo, e logo, as entidades que observavam do outro lado entrariam em seu mundo. Não havia mais escapatória. As vozes, agora mais unidas e claras, deixaram uma última mensagem:


— "Prepare-se, Helena. Eles estão chegando."


Com um último suspiro de terror, Helena percebeu que não era apenas uma vítima de um acidente. Ela era a chave, a porta por onde essas criaturas de outras dimensões entrariam no mundo.


E então, a escuridão a envolveu.


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Epílogo: A Porta Aberta


Em um pequeno noticiário local, uma manchete discreta informava sobre uma mulher desaparecida após sofrer um acidente de carro em uma estrada deserta. Seu corpo nunca foi encontrado, apenas fragmentos de metal e vidro.


Mas aqueles que caminhavam por aquela estrada deserta em noites de neblina diziam ouvir **sussurros** ao longe, vozes que falavam de coisas terríveis, coisas que ninguém deveria saber.


E assim, a lenda das vozes da escuridão cresceu, sussurrada nas sombras de um mundo que, agora, já não estava mais sozinho. 

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