Amor e Tempestade
Amor e Tempestade
A tempestade caía com fúria, as rajadas de vento faziam as árvores vergarem sob o peso da água e do trovão. O céu, um manto cinza e denso, tornava o dia tão escuro quanto a noite. Lúcia apertava o volante com força enquanto dirigia pela estrada molhada e esburacada que serpenteava por entre montanhas e colinas. As gotas de chuva eram tão pesadas que o limpador do para-brisa mal conseguia dar conta, e o GPS havia perdido o sinal havia mais de uma hora.
Ela estava exausta. Tinha saído de São Paulo naquela manhã, tentando fugir de tudo que deixava para trás: uma carreira que já não fazia sentido, um noivado rompido, e uma série de expectativas não cumpridas que a sufocavam cada vez mais. Sentia-se como se estivesse sempre tentando corresponder a padrões que não eram seus, e agora, com 32 anos, estava perdida. A viagem não tinha um destino certo; o objetivo era apenas sair, se afastar, dirigir para onde as estradas a levassem.
O rádio do carro chiava, falhando em sintonizar qualquer estação, mas não era só a falta de música que incomodava Lúcia. Era o silêncio ensurdecedor de seus próprios pensamentos. O choro da tempestade lá fora refletia o turbilhão dentro dela. De repente, uma placa borrada pelo vento indicou uma cidade pequena, a próxima parada em 5 km. Um alívio tomou conta de Lúcia. Ela precisava parar. As condições estavam piorando, e seu corpo pedia descanso.
Quando finalmente chegou à entrada da cidade, avistou um posto de gasolina abandonado e, logo adiante, uma praça central deserta. Algumas casas antigas, janelas fechadas, lojas com portas cerradas. A cidade parecia suspensa no tempo, ou talvez fosse apenas o efeito da tempestade que tornava tudo tão sombrio.
Atravessando a praça, ela avistou uma pousada modesta, com uma varanda protegida onde algumas luzes ainda estavam acesas. Com sorte, alguém estaria lá. O carro finalmente parou com um suspiro de alívio. Lúcia saiu, cobrindo-se com um casaco e correndo até a porta da pousada. Um sino tilintou quando ela entrou.
O saguão era pequeno, com uma lareira acesa que lançava sombras quentes pelas paredes de madeira. O ambiente cheirava a café e a livros antigos. Atrás do balcão, uma mulher de cabelos grisalhos sorriu com simpatia, enxugando as mãos em um avental.
— Boa tarde — disse Lúcia, tentando soar mais tranquila do que realmente se sentia. — Você tem algum quarto disponível?
— Temos, sim, querida — respondeu a mulher, com a voz suave. — Essa tempestade não vai embora tão cedo. Melhor se abrigar.
Lúcia concordou com um aceno de cabeça, enquanto pegava a chave do quarto que a mulher lhe oferecia. Subiu uma escada de madeira que rangia sob seus pés e se dirigiu ao segundo andar. O quarto era simples, mas aconchegante, com móveis de madeira rústicos e uma janela que dava para a praça. Do lado de fora, a chuva continuava martelando o mundo, mas ali dentro o calor da lareira tornava o ambiente acolhedor.
Ela se jogou na cama, sem forças, mas seus pensamentos ainda corriam a mil. Tentava processar os últimos meses de sua vida, a separação recente de Marcelo, a pressão para ter sucesso na carreira que já não a preenchia. O peso de tudo aquilo fazia seu peito apertar.
Foi quando ouviu um barulho no corredor. Passos. Alguém caminhava lentamente em direção ao quarto ao lado do seu. Lúcia levantou-se e abriu a porta, sem realmente saber por quê. O corredor estava parcialmente iluminado, e, no final dele, viu um homem parado em frente à janela, olhando para a tempestade. Ele usava uma jaqueta preta, o cabelo castanho estava molhado, e suas botas estavam cobertas de lama. Ele parecia perdido em pensamentos, até perceber que ela o observava.
— Desculpe, não queria incomodar — disse Lúcia, um pouco embaraçada.
O homem virou-se para ela e esboçou um sorriso discreto, mas seus olhos estavam sombrios, como se carregassem o peso de muitos segredos.
— Não tem problema — ele respondeu com uma voz baixa e rouca. — Eu estava apenas... olhando a tempestade.
Lúcia hesitou por um momento antes de falar novamente.
— Eu... acabei de chegar. A estrada estava terrível. Parece que essa chuva vai durar a noite toda.
— Vai, sim — ele respondeu, olhando para a janela novamente. — Parece que estamos presos aqui por um tempo.
Ela assentiu, sem saber o que mais dizer. Havia algo na presença daquele homem que a intrigava. Ele parecia estar ali por uma razão tão misteriosa quanto a dela, talvez fugindo de algo, ou de alguém.
— Eu sou Lúcia — ela se apresentou, tentando romper a estranha sensação de que aquele encontro era mais do que uma simples coincidência.
— Miguel — ele disse, estendendo a mão. — Estou só de passagem.
Eles se cumprimentaram, e, por um breve momento, os olhos de Miguel se prenderam aos de Lúcia. Havia algo ali, uma conexão inexplicável, como se ambos soubessem que esse encontro inesperado estava para mudar suas vidas de alguma forma.
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Capítulo 2: Segredos nas Sombras
Os dias seguintes foram marcados pelo constante som da chuva batendo nas janelas da pousada. Lúcia e Miguel, sem saber o que fazer com o tempo preso naquela pequena cidade, começaram a passar mais tempo juntos. Inicialmente, as conversas eram curtas, trocas ocasionais no café da manhã ou nos momentos em que se cruzavam no saguão da pousada. Mas, pouco a pouco, as interações se aprofundaram.
Lúcia descobriu que Miguel tinha um ar de mistério que ela não conseguia desvendar. Ele falava pouco sobre si, mas mencionou que trabalhava com algo relacionado a construção e que também estava fugindo de algo, embora não entrasse em detalhes.
— Às vezes, a gente precisa fugir, não é? — disse Lúcia certa noite, enquanto ambos estavam sentados na varanda, assistindo à tempestade que parecia interminável.
— Talvez — respondeu Miguel, pensativo. — Mas sempre acho que, mais cedo ou mais tarde, o que estamos tentando evitar acaba nos encontrando.
Aquela frase ficou na cabeça de Lúcia. Ela sabia que ele estava certo. Não importava o quanto tentasse escapar de seus próprios medos e arrependimentos, eventualmente teria que enfrentá-los. A pergunta era: estaria pronta para isso?
Os dias passaram, e uma proximidade mais íntima começou a surgir entre eles. Compartilhavam suas dores e medos, mas ainda mantinham segredos, camadas ocultas que não estavam prontos para expor. Contudo, não podiam ignorar a atração crescente, nem o fato de que ambos estavam profundamente marcados por seus passados.
Foi numa tarde particularmente tempestuosa que Miguel, finalmente, abriu-se um pouco mais.
— Eu... não te contei tudo sobre mim — disse ele, enquanto o fogo crepitava na lareira da sala. — Estou fugindo de um erro. Um erro grave que cometi anos atrás e que me assombra todos os dias.
Lúcia o olhou em silêncio, sentindo que aquele era o momento de revelações, tanto dele quanto dela.
— Eu também tenho fantasmas — ela admitiu, a voz vacilante. — Não consigo mais saber quem eu sou, nem o que estou buscando. Acho que, no fundo, vim para cá porque precisava me perder antes de tentar me encontrar.
A conexão entre eles ficou mais intensa a partir daquele momento. Ambos sabiam que o que os unia era muito mais do que a mera coincidência de uma tempestade.
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Capítulo 3: Conexões Reveladas
Conforme as revelações se desenrolam, Lúcia e Miguel descobrem que seus passados estão mais conectados do que poderiam imaginar. A verdade que ambos escondem tem raízes em eventos que os ligam de maneira inesperada.
Um acidente antigo, uma perda trágica e o impacto disso nas vidas deles começam a ser desvendados. No fim, a tempestade é apenas o prelúdio da grande transformação interna que cada um precisa enfrentar.
Lúcia e Miguel não só se encontram mutuamente, mas também encontram redenção e o poder de recomeçar, juntos.
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A tempestade, no fim, se dissipa, mas a jornada de Lúcia e Miguel apenas começa. Eles descobrem que, por mais assustador que seja encarar os próprios fantasmas, é sempre possível encontrar luz, mesmo nas tempestades mais sombrias.
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Fim
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